ANTÓNIO DE SOUSA DIAS

Bio, works, projects, writings...

  • Aumentar o tamanho da fonte
  • Tamanho padrão da fonte
  • Diminuir tamanho da fonte
Entrada Vários Concerto de dia 9 de Novembro de 1997

Concerto de dia 9 de Novembro de 1997

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
António de Sousa Dias, Serralves : concerto, 9 de Novembro de 1997; Fundação de Serralves, Porto
Grupo Música Nova, dirigido por Cândido Lima
Programa:
1. Gamanço nº 1 1997 — António de Sousa Dias (banda magnética)
2. Schlaf der Schatten 1997 — Paulo Ferreira Lopes (cl, vlc, perc e pno)
3. Mise-en-Page 1990 — António de Sousa Dias (banda magnética)
4. Natureza Morta com Ruídos de Sala, Efeitos Especiais e Claquete 1997 — António de Sousa Dias (banda magnética)
5. Cinco Circunstâncias para Clarinete e Piano 1995 — António de Sousa Dias (cl e pno)
6. Bleu-Rouge (Regards) rev1997— Cândido Lima (versão para banda magnética)
7. Komm, tanz mit mir! 1997 — António de Sousa Dias (cl., vla, vlc, vib e pno)

[TEXTO PARA O CONCERTO]

«Não estamos sós» poderia ser uma frase aplicável com toda a justiça ao concerto de hoje. Mais que uma mera frase, poderá ser considerada aqui como proposição chave. Com efeito, embora a actividade de compositor seja uma actividade isolada, o seu percurso pessoal, a sua obra resultam em grande parte da sua relação com o meio, com os outros.

Assim, pedi a colaboração de dois amigos, o Cândido Lima e o Paulo Ferreira Lopes, também eles compositores, no sentido de estarem presentes aqui comigo, ou melhor, com parte da minha obra, através da presença de obras suas. Porquê estes e não outros, também compositores, também amigos? Neste contexto específico, entendi a proposta da Fundação de Serralves como prioritariamente orientada para uma música que envolvesse meios tecnológicos. Interpretei livremente a proposta e pareceu-me lógico convidar dois compositores que, para além da amizade que têm demonstrado para comigo ao longo dos anos, estivessem envolvidos de alguma forma neste tipo de música. Por outro lado tem o aspecto interessante de representarem comigo três gerações de compositores em Portugal: o Cândido pertencente à geração de compositores que formou e antecedeu a minha geração, o Paulo integrando a geração que sucedeu à minha e, no seu caso particular, tendo sido meu discípulo.

A presença de obras puramente instrumentais deve-se ao facto da tecnologia hoje ter invadido todos os domínios musicais. A sua apresentação aqui justifica-se pelo manifesto interesse de observar qual a influência dos meios tecnológicos na escrita instrumental. Também é uma forma de permitir que outros participem, revelando uma forma muito especial de amizade, aquela que se expressa no facto de executarem as nossas obras, fechando de forma harmoniosa este misterioso círculo que é a relação compositor-intérprete-ouvinte.

Das obras escolhidas poderia dizer muito brevemente que Gamanço nº1 inicia um ciclo fechado que constantemente se renova: o do ensino. Obra dedicada aos meus alunos da disciplina de Música Electroacústica da ESML, constrói-se à custa dos materiais que eles próprios realizaram. Esta é uma forma divertida de expressar o que com eles aprendi ao longo destes anos. Como continuação, Schlaf der Schatten, de Paulo Ferreira Lopes, representa um trabalho de um jovem compositor já com uma carreira de vulto. É explorado um tipo de escrita preponderantemente solística, com um cuidadoso trabalho de localização espacial apesar de uma difusão quase frontal do som. Mise-en-Page, obra realizada nos estúdios dos Ateliers UPIC, é um estudo de densidades extremas, um contraponto em forma de nevoeiro. Alguém se apercebe das situações em que se encontram a tocar em simultâneo cerca de 128 sons? Muitos dos meus trabalhos foram concebidos para cinema, arte à qual dedico esta Natureza Morta com Ruídos de Sala, Efeitos Especiais e Claquete. É um estudo de efeitos contraditórios, revelando aproximações entre sons que visualmente não se relacionam. Mas é assim que se produzem grande parte dos sons em cinema... Cinco Circunstâncias para Clarinete e Piano representa uma filtragem neste longo processo de aprendizagem. Obra de grande austeridade onde as relações entre sons não seriam pensadas instrumentalmente se não houvesse uma prática de música electroacústica. Prática esta revelada em Bleu-Rouge (Regards), de Cândido Lima, versão para banda magnética. A anterior versão para instrumentos e sons electrónicos era um estudo-esboço sobre a relação som-imagem, som-cor, som-luz, som-espaço. Nesta versão, a parte electrónica é integralmente assumida. Pareceu-nos, a mim e ao Cândido, um desafio interessante: afinal a banda original fora realizada com a minha assistência técnica representando um resultando possível da colaboração entre dois compositores. Komm, tanz mit mir! é o fechar deste ciclo sempre renovável. Obra dedicada a outro amigo, a Constança Capdeville de quem eu próprio fui discípulo, apela fortemente ao aspecto físico inerente ao acto da escuta musical. A valsa é a forma escolhida pelas suas potencialidades, potencialidades essas que resultam da acumulação de tensão realizada por meio de uma repetitividade constante.

Fica o convite, o convite à dança

António de Sousa Dias
[9.11.97]

Actualizado em Domingo, 17 Maio 2009 14:23